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domingo, 1 de maio de 2022

Os Brasis que fizeram Ceará, Fortaleza e Sport serem campeões brasileiros nos anos 60 e 70 | Parte 2: O conceito Nacional do futebol

Após a argumentação na matéria Os Brasis que fizeram Ceará, Fortaleza e Sport serem campeões brasileiros nos anos 60 e 70, em que é exibida o paralelismo e equivalência regional entre a Taça de Prata e o Torneio Norte-Nordeste em 1968, 1969 e 1970, um dos argumentos mais usados por quem defende ou é contra a tese, ou até mesmo por quem busca entender, é o conceito "nacional" no futebol. O que é preciso pra uma competição ser legitimamente nacional? É preciso ter todos os estados e regiões disputando? Se sim, quer dizer que até mesmo a atual Série A não é nacional por, por exemplo, não ter a região norte do Brasil representada? É disso que vou falar nessa extensão do tema.

Em 2010, a Taça Brasil e a Taça de Prata, ou simplesmente Robertão, foram unificados como Campeonato Brasileiro, porém, na minha visão, só existem dois torneios em que enxergo como âmbito nacional, é a Taça Brasil (1959-1968) e o Torneio dos Campeões da CBD (1969), ou seja, o Robertão não foi um nacional de forma legítima, não foi de fato, mesmo que de direito e via senso comum e tratativa de imprensa, alguns tratem, de forma absurda, só o Roberto Gomes Pedrosa como nacional.


O conceito "nacional" no futebol não deve ser tratado da mesma forma que o conceito "nacional" da República, onde, pra exemplificar, um projeto do Governo Federal pra ser nacional deve ser ampliado para todas regiões e estados independente de qualquer fator. No futebol é diferente, algo pra ser nacional não precisa contar tecnicamente dentro um torneio com representantes de todas regiões e/ou estados, mas sim ser um torneio formalizado via consulta de todos os representantes das tais federações estaduais filiadas e dentro de um método apto na profissionalização, legalização e padronização, essa consulta seguindo o mapa nacional oficial do futebol.

A Taça Brasil quando surgiu, teve o intuito de dar ao Brasil o seu primeiro campeão nacional e pra isso teve que criar (ou seguir) um mapa nacional do futebol, nele todas as federações estaduais brasileiras filiadas e que tinham seus campeões estaduais definidos foram consultadas e as que cumpriam e estavam dentro das aptidões necessárias, foram representadas, via critério técnico. Isso é verdadeiramente e legitimamente algo nacional, assim como o torneio vencido pelo Grêmio Maringá em 1969, quando houve o encontro entre os campeões dos torneios que na sua somatória, reunia a representação legal e legitima de todas federações filiadas a CBD, que por Robertão, Norte-Nordeste e Centro-Sul, era a garantia que por Santos, Sport e Grêmio Maringá, todo o país teve sua representação legítima.

O conceito "nacional" não é voltado a técnica, a prestígio e a finanças, e sim a um seguimento criterioso dentro da geografia e legalizações do mapa da República junto ao mapa do futebol. A Taça de Prata, popularmente chamada de Robertão foi um sucesso dentro e fora de campo, porém, diferente da Taça Brasil, não foi nacional de forma legítima, pois, além de seu critério de participação ser via convite e por peso político e influência de federações e clubes, baseado no sucesso financeiro de público e renda, sem respeitar resultados esportivos, não seguiu o mapa nacional profissional da época, mapa esse que a própria CBD, coordenadora do Robertão a partir de 1968, revolucionou pela Taça Brasil, o qual impactou para o profissionalismo e filiações em diversos estados ao longo das 10 temporadas do torneio nacional, portanto, diversos estados profissionais, inclusive o do Ceará, vice-campeão da Taça Brasil, não teve chance de disputar o que era tratado como nacional pelo fato de ser descartado e mesmo assim foi efetivado em 2010 pela CBF. Paralelo ao Robertão, tiveram dois torneios, o Norte-Nordeste e o Centro-Sul, que assim como o Robertão de forma legitima, eram inter-regionais que também foram embriões do Brasileirão, porém, seguindo critérios técnicos. Inclusive, assim que surgiu o Campeonato Nacional de Clubes em 1971, houve o fim dos conceitos dos campeonatos Robertão e Norte-Nordeste.

Para exemplificar o conceito:

O Brasil tem 27 federações de futebol profissionais e filiadas, imagine o cenário onde a CBF cria um torneio com 26 delas e a que sobra não foi consultada, não foi informada e por uma irresponsabilidade da entidade nacional ficou de fora. O torneio foi um sucesso de cobertura, técnica, público e renda. Ele deve ser considerado nacional? Claro que não, ele precisaria ter ao menos a consulta da 27ª federação profissional filiada e assim, poder de fato, via mapa nacional do futebol, ser tratado como campeonato como nacional. Mas em qual categoria ele se encaixaria? Interestadual.

Agora vamos pra outro cenário: a CBF ganha mais uma vaga pra Libertadores e quer definir seu representante através de um torneio nacional entre os 27 campeões estaduais de 2021. Todas as federações recebem o ofício com todos os requisitos, datas e demais detalhes para inscrever os seus representantes. Algumas federações em comum com seus campeões, vices e demais clubes dos estaduais abrem mão da vaga e de maneira formal informam a CBF, cada uma por sua razão específica e apenas 4 estados participarão representados pelos seus campeões: Alagoas (CSA), Minas Gerais (Atlético-MG), Pernambuco (Náutico) e Rio de Janeiro (Flamengo) e 1 estado participará com o seu vice, após o campeão se negar a jogar: Ceará (Ceará). No total dos 27 estados e 5 regiões com direito a disputa informados pela CBF, apenas 5 estados de 2 regiões participarão. Seria um inter-regional? Não, é um torneio nacional, pois é um campeonato que reúne todos os representantes legais via critério técnico de todas federações estaduais vinculadas a CBF e que inscreveram seus clubes, sendo que todas receberam a consulta e o ofício e algumas delas abriram mão por conta própria junto a seus clubes. Foi seguido o mapa nacional profissional do futebol brasileiro de forma legítima e legal.


Exemplos atuais:

O Brasil hoje tem 27 federações e sabe quantas delas disputam a Série A de 2022? 9 federações, são elas: SP, MG, MT, RS, SC, RJ, PR, CE e GO. Sabe quantos estados estão de fora? 18, o dobro da representação, mas isso quer dizer que o torneio não é nacional? Lógico que não, é até surreal usar o Brasileirão hoje pra dá peso ao Robertão ou qualquer torneio na era pré-Brasileirão.

O Campeonato Brasileiro é formado por 4 divisões, as Séries A, B, C e D, ou seja, em sua totalidade, o Brasileirão se torna legitimamente nacional pois ele, assim como a Copa do Brasil, é um torneio ligado a todos os campeonatos estaduais, a todos 26 estados + Distrito Federal. Se apenas 9 estados disputam a elite, isso é por mérito próprio, mas as vias de chegada são justas e seguem o mapa oficial do futebol brasileiro. Pode até não ter 27 federações na elite, mas existem 27 federações no Campeonato Brasileiro como um todo. É possível até ter uma Série A só com um estado, por exemplo, imagine clubes de São Paulo partindo da Série D pra C, depois pra B e chegando pra A, ao mesmo tempo que clubes de outros estados sendo rebaixados. A nacionalização legítima de uma competição não é definida pelo número de estados ou totalidade de estados participantes e sim de suas vias. O Cuiabá é um grande exemplo de como o Mato Grosso sempre esteve representado. O MT não começou a disputar o Brasileirão assim que seu principal clube disputou a elite e sim quando seu estadual teve direito a ter uma vaga na última divisão do Brasileiro.

A Supercopa do Brasil de 2022 contou com 2 estados: MG e RJ, ambos da mesma região, a sudeste. Por quê esse torneio é nacional? Pois suas vagas vieram de critério técnico por dois torneios que seguem o mapa nacional do futebol brasileiro de forma legítima, o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil. Outro exemplo foi a Copa dos Campeões, aquela disputada entre 2000 e 2002, muitos estados não disputaram, mas todos tiveram chance de disputar, através de torneios estaduais e regionais caso fossem vencidos por seus representantes.

Sabe um torneio que não seguiu o mapa nacional oficial do futebol brasileiro? O Campeonato Brasileiro de 1971, sim, ele mesmo, o que sempre foi tratado como o primeiro Brasileirão da história. Originalmente chamado de Campeonato Nacional de Clubes, o torneio não contou com os estados de Goiás, Santa Catarina, Rio de Janeiro (não confundir com a Guanabara) e Amazonas. As federações e os clubes dos quatro estados, liderados pelos goianos, brigaram por seus direitos e escancararam para todo Brasil o descaso que estava ocorrendo naquele processo, onde todos ficaram de fora do Brasileirão sem critério algum, sem resposta, ao mesmo tempo que assistia a Guanabara e São Paulo tendo 5 representantes cada, além de Pernambuco que tinha 1 representante no Robertão, passar a ter mais 1, muito pela força política do estado, enquanto nem sequer um dos campeões estaduais dos 4 estados que ficaram de fora podendo disputar. Assim como o Torneio Norte-Nordeste existiu pra fazer que os excluídos tivessem um calendário 'nacional', os excluídos do Brasileirão de 1971 disputaram o Torneio de Integração Nacional, organizado pela CBD e vencido pelo Atlético-GO. Assim como Norte-Nordeste e Robertão, o Integração e Brasileirão eram paralelos.

A sensação e fato da exclusão por forças externas não é anacronismo, é história, é a época. A luta por direitos e a revolta não é algo que começou no meu texto, ela começou lá atrás, exatamente na época retratada. Sabe outro detalhe do descaso ocorrido? Mesmo com o Robertão e o Norte-Nordeste paralelos, os estados de GO, MT, SC e DF ficam de fora da disputa durante 1969 e 1970. Em 1968, o ES disputou o Torneio Centro-Sul, mas também ficou de fora em 1969 e 1970. O Brasileirão de 1971 foi apenas um reflexo das exclusões que começaram com o fim da Taça Brasil.

Tanto o Robertão como o Norte-Nordeste não são nacionais. Podendo até ser, se a CBF enfim tratar que existia Brasis, o Brasil Norte e o Brasil Sul. Essa visão sobre o conceito 'nacional' do futebol sustenta a categorias a qual coloco os dois torneios pilares desse assunto como Torneio Principiante Nacional Regionalizado e não Nacionalizado. Recentemente, escrevi uma argumentação junto a uma nova metodologia para unificar os títulos brasileiros, através de critérios e novas categorias estabelecidas. Para entender melhor as razões de que tanto Robertão como Norte-Nordeste poderiam/podem ser unificados sem representar algo maior ou menor como foram de fatos, confira na matéria: As prateleiras e categorias que solucionam problemas e polêmicas na unificação do Brasileirão.

quarta-feira, 23 de março de 2022

Os Brasis que fizeram Ceará, Fortaleza e Sport serem campeões brasileiros nos anos 60 e 70

Não é de hoje que existe uma sensação e vontade de grande parte dos clubes, torcedores, federações e imprensas do eixo sul-sudeste em centralizar o Brasil em seus estados, buscando a elitização meio a ignorância dos direitos, legitimidade e geografia brasileira. O futebol é um dos mais fortes termômetros sociais, históricos, políticos e xenófobos do país e sua história conta tentativas e até sucesso em dividir o Brasil em dois, entre o lado norte, que era tratado como resto, mesmo por diversos anos vencendo e sendo mais forte mesmo sem apoio e passando por cima de canalhices; e o lado sul, sempre tratado como o áureo nacional, como em 1967, 1968, 1969 e 1970, quando houve campeões inter-regionais de um lado e de outro, ou simplesmente campeões nacionais de cada lado, com Sport, Ceará e Fortaleza conquistando o Brasil da 'linha divisória' pra cima.
Jornal O Povo destaca o Ceará campeão do lado norte do país. (foto: reprodução)
Lembra do Muro de Berlim? A barreira física que dividia a Alemanha em duas por aspectos sociais e políticos. Pois bem, foi assim que aconteceu no futebol brasileiro, um muro imaginário que assim como existia a Alemanha Oriental e Alemanha Ocidental, houve o Brasil Norte e Brasil Sul, cada um com suas competições e campeões, mesmo que tecnicamente diferentes, mas tão nacionais e legítimos como a brasilidade de quem nasceu no pico de Roraima ou nas pontas extremas do Rio Grande do Sul. Vamos entender melhor essa cronologia.

Fundada em 1914, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) vinha buscando a qualificação e profissionalismo do futebol brasileiro, principalmente pelo intuito de criar seleções nacionais para competições importantes como Olimpíada e Sul-Americano serem disputadas com valência. A entidade desde os anos 20 realiza torneios que reunia aspectos nacionais por participações de clubes e federações filiadas a ela e desde então criando um mapa nacional que ao longo dos anos foi ganhando corpo, ganhando revolução e qualidade até chegar o grande ano de 1959.

O futebol europeu já vivia grandes evoluções nacionais e internacionais desde 1955, enquanto a América do Sul buscava criar seu torneio continental e que em 1960 teve sua primeira edição: a Libertadores da América. O Brasil, já campeão do mundo, precisava mandar seu representante pro torneio, mas ainda não havia um campeonato de nível nacional, diferente da Argentina que já tinha o seu desde 1891 e o Uruguai, desde 1900 e assim foi criada a Taça Brasil, verdadeiramente o primeiro torneio a nível nacional.
Bahia, campeão do 1º e único torneio verdadeiramente nacional antes da criação do Brasileirão
Foto: Divulgação/Bahia
A Taça Brasil foi criada com um rico e justo critério, o qual fez que a competição fosse legitimamente nacional para contextos financeiros, logísticos e culturais da época. 16 estados filiados a CBD e dentro dos padrões mínimos de profissionalismo tiveram seus campeões estaduais como representantes, como ABC, Auto Esporte-PB, Bahia, Ceará, CSA, Ferroviário-MA e Sport. Houve na época uma certa pressão para que o representante do Brasil viesse nos embates entre RJ e SP, mas a própria CBD reconhecendo que o Brasil não é somente Cristo Redentor e as águas que molham a Terra da Garoa, colocou o que o país tinha de mais profissional e legal pra decidir a vaga continental do ano seguinte e a primeira taça brasileira, a qual o Bahia venceu diante do Santos.

Na edição de 1960, o impacto da Taça Brasil já elevou o esporte nacional e de 16, o torneio passou a ter 17 estados participantes, era o Sergipe desenvolvendo seu profissionalismo. Em 1961, continuou com o número de estados participantes, porém com uma vaga a mais, onde o campeão do ano anterior garantia seu lugar no ano seguinte, abrindo vaga para o melhor colocado do estadual referente ao estado do campeão da Taça Brasil melhor colocado sem ser o próprio. Em 1962, mais um estado entrou na disputa, o Piauí. Eram 18 estados participantes via critério técnico. Tudo só melhorou em 1963, quando o estado de Goiás e o Distrito Federal com seu campeão brasiliense também participaram, junto com os campeões fluminense (Rio de Janeiro) e carioca (Guanabara). Simplesmente o Brasil após ser bicampeão mundial, ver seu torneio nacional agregar valores em fazer que mais estados elevem seus níveis de profissionalismo e seu status nacional fique legitimamente firme. Em 1964 mais um impacto, com o campeão do estado do Amazonas participando. E assim foi se desenvolvendo a Taça Brasil, até entrar mais um estado, o Mato Grosso, em 1968, a última edição desse belíssimo e verdadeiro torneio nacional.

Mas por que um torneio tão importante, tão nacional, criado por conta da Libertadores, que seguia um verdadeiro mapa profissional brasileiro teria fim? Se acabou em 1968 e o Brasileirão oficialmente começou em 1971, o que houve meio esse período? É disso que estamos falando! Entre 1933 e 1966, era disputado nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, o Torneio Rio-São Paulo, organizado pelas federações paulista e a fluminense, oficialmente denominada de Torneio Roberto Gomes Pedrosa, homenageando o ex-jogador, dirigente e político que nasceu no RJ e faleceu em SP.

Em 1967, paulistas e fluminenses convidam clubes dos estados de Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul para participarem daquela edição. E o Roberto Gomes Pedrosa que tinha apenas clubes dos dois principais estados, passou a se chamar popularmente de 'Robertão' pela amplitude de mais 3 estados no torneio. Como de se imaginar, foi um sucesso, com imprensa, clubes, torcida e tudo mais prestigiando aquele que é um espetáculo técnico e financeiro, chamando atenção também por não ser uma competição de mata-mata e sim de grupos e quadrangular final. De fato, um torneio extremamente interessante. Nos dias de hoje seria o melhor inter-regional do país. E que acabou sendo unificado como Brasileirão pela CBF em 2010, juntos as demais 3 edições posteriores.

O sucesso do Robertão fez com o que os clubes e estados presentes do Rio-São Paulo ampliado enchessem os olhos para o Robertão, que rendia mais dinheiro e a sensação era de algo muito mais elitizado. Logo na edição posterior, em 1968, a CBD começou a organizar e não mais as federação de RJ e SP. O Robertão passou por mais uma renomeação, sendo chamado de Taça de Prata. Ou seja, em 68 houve a primeira edição do Robertão (Taça de Prata) com a CBD comandando e a última edição da Taça Brasil, que pelo desinteresse de alguns clubes ao ver que o Robertão dava mais renda e público, acabaram optando pelo inter-regional. Por esses motivos, a Taça Brasil houve atraso de calendário por todo imbróglio de interesses, gerando até confusão na distribuição de vagas do país para a Libertadores, que em 1969 não houve brasileiros, exatamente pois o torneio continental estava batendo a porta e a Taça Brasil nem havia sido finalizada ainda. A CBD então decidiu, pela primeira vez, dá a vagas aos melhores do Robertão, os quais acabaram desistindo.

O Robertão foi um torneio onde o critério de participação era via convite e os convidados eram os clubes e marcas que paulistas e fluminenses entendiam como ideais para seus níveis, além de interesses políticos, sem vínculo algum com ranqueamento ou campeões estaduais e anos anteriores. Como em 1968 onde o Athletico-PR (que estava muito longe de ser o que é hoje) participou, o mesmo ficou em 12º no estadual de 67, estando num jejum de 10 anos sem título e 10 anos fora do G4 paranaense e ter disputado a Taça Brasil apenas 1 vez, logo na 1ª edição. Na edição de 1969, o Náutico que era o atual hexa-campeão do estado, vice da Taça Brasil e com participação recente na Libertadores foi trocado pelo Santa Cruz, que ainda não era o campeão estadual daquele ano, enquanto Galícia e Fluminense-BA, campeões baianos de 68 e 69 viam o Bahia, que por sinal esteve de fora até do G3 baiano em uma das edições, ficou, participando de todas edições do Robertão.

Entre 1959 e 1968, o Brasil teve um torneio verdadeiramente nacional, respeitando a geografia profissional e esportiva de todos os estados e clubes quais estavam filiados a CBD e que tinham níveis profissionais dentro dos padrões mínimos para participarem com todo o direito. Após 10 temporadas de um torneio que nunca houve regresso de participantes e sim aumento de estados e impactos que desenvolviam o esporte nacional a cada ano, a CBD pisou num mapa, na geografia, no avanço e no direito legítimo de diversos estados e regiões, que não puderam disputar as vagas da Libertadores de 1970 e 1971 pois seus direitos foram tomados pela entidade que se alimentou do ego, da elitização e dos interesses financeiros via uma competição anti-desportiva, descriteriosa e que foi uma das sementes para que tudo de mais lamentável do futebol brasileiro começasse ali.
Náutico destrói o Santos de Pelé, bicampeão da Libertadores e do mundo pela Taça Brasil
Foto: Reprodução/Jornal Estado de São Paulo
Um lado do Brasil que quando enfrentou aqueles que se achavam imbatíveis e que representava o Brasil de fato, chegou a vencer e a ser pioneiro. O primeiro título nacional do país foi num embate entre norte contra o sul, que deu a taça ao norte e fez que o excluídos fossem os primeiros representantes brasileiros na Libertadores. O norte enfrentando o sul venceu jogos com goleadas de 5 gols em cima do Santos de Pelé, 3 no Palmeiras de Djalma Santos e Ademir da Guia e goleando Atlético-MG e Cruzeiro, além de eliminar Vasco e Botafogo. Entre as 10 finais da Taça Brasil, o norte chegou em 6, inclusive com 3 times de 3 estados diferentes. O estado do Ceará chegou a mais finais que Minas Gerais, enquanto a Bahia disputou o mesmo número de finais que a Guanabara. Sim, acredite, a CBD ignorou todo esse processo em troca da elitização, do prestígio e de alimentar egos da parte inferior do país por seus interesses.

Ué, CBD? Logo você que nos primórdios dos anos 20 mostrava ser tão segura com o profissionalismo do futebol brasileiro, chegando a criar competições e mapeando estados de níveis legais e novas filiações para criar testagens para seleção brasileira? Inclusive chegando a convocar o atleta Mica, do Botafogo-BA em 1923. Logo você que optou não ter participantes brasileiros na Libertadores de 1966 pois o formato da competição estava descaracterizando a validade do torneio? Logo tu que vinha tão bem.

Meio a tudo isso, a CBD criou um torneio paralelo ao Robertão, que foi nada mais nada menos que o mesmo Robertão, só que do norte, originalmente chamado de Torneio Norte-Nordeste, contando exatamente com toda aquela turma do lado norte do Brasil que disputava a Taça Brasil. Na prática, o Robertão e o Torneio Norte-Nordeste eram a Taça Brasil geograficamente dividida em duas, com o inter-regional do lado sul sendo considerado campeonato nacional e dando vaga pra Libertadores, mesmo sem critérios técnicos, enquanto o Norte-Nordeste contou com todos os 11 estados filiados e dentro dos padrões profissionais da CBD, tendo com os melhores times dos respectivos estaduais, inclusive com todos estados gozando de 3 representantes cada, e os 3 principais e únicos finalistas da Taça Brasil, Bahia, Ceará e Pernambuco, contando com 4, como na edição de 1970.

A CBD largou o seu torneio para cuidar do torneio dos outros. Nesse meio, o Norte-Nordeste foi nada mais nada menos que um 'cala a boca' pra clubes de milhões de torcedores, de diversas convocações pra seleção brasileira, de finais nacionais, de estádio sede de Copa do Mundo, de revelações da base que ajudaram o Brasil a ser campeão de todas Copas do Mundo que possuía, de estados campeões e vices do Campeonato Brasileiro de Seleções. Como você pode deixar Fortaleza, bi-vice campeão da Taça Brasil, o Sport, clube que nos anos 40 realizou a excursão que fez o lado norte do Brasil ser conhecido no sul e maior campeão do maior estadual do norte e contar com clubes como Ponte Preta e Athletico-PR, extremamente menores que todos os principais dos principais estados do lado norte, tudo por puro capricho. Nem sequer realizar um cruzamento final entre o Robertão e o Norte-Nordeste para decidir a vaga da Libertadores do ano seguinte.
Time do Sport, campeão brasileiro do norte de 1968
Imagem: Diário de Pernambuco
Falando nisso, sabe outro fato? A CBD precisava indicar o seu representante para a Libertadores de 1970 e criou o Torneio dos Campeões da CBD em 1969, que reunia os vencedores de todos os torneios que a entidade comandava. Participaram o Botafogo, campeão da Taça Brasil, o Santos, campeão do Robertão, o Sport, campeão do Torneio Norte-Nordeste e o Grêmio Maringá, campeão do Torneio Centro-Sul. Notou-se a confusão que se encontrava a Confederação Brasileira de Desportos. Ela não foi capaz de dar continuidade ao seu tradicional regulamento, indicando o representante pela Taça Brasil, ao mesmo tempo que já comandava e dava o prestígio de um torneio nacional ao Robertão e que deslegitimava o Torneio Norte-Nordeste e o Torneio Centro-Sul, todos esses que tiveram que se enfrentar para decidir a vaga, ou seja, pra decidir quem seria o campeão brasileiro, certo? O Grêmio Maringá venceu o torneio, que acabou se esvaziando pela desistência de Botafogo e Santos ao verem que a entidade desistiu de enviar seu representante a Libertadores e por falta de datas, respectivamente. No fim, vemos que nem a própria CBD considerava de forma totalmente legitimada a Taça de Prata como o campeonato nacional, pois se sim, enviaria seu campeão direto, sem precisar desse cruzamento entre outros torneios.

Detalhe: O Grêmio Maringá já tentou reconhecer o seu título junto a CBF, que de fato e direito foi oficial, via critérios dos torneios inter-regionais ou 'nacionais' da época e fundamentado por uma vaga internacional do ano seguinte. Inclusive falou-se que o clube buscaria também uma vaga pra Libertadores como justiça, já que seu direito foi retirado em 1970 e que abriria outro debate: o trio campeão do Brasil do Norte perderam seus direitos de disputarem uma vaga pra Libertadores, assim como os 11 estados como um todo. Os três Torneios Norte-Nordeste assim que oficializados teriam a chance da reparação histórica com as equipes campeãs tendo as vagas para a competição da Conmebol? Seja os três de uma vez ou um a cada temporada seguindo a sequência de títulos brasileiros do norte: Sport, Ceará e Fortaleza respectivamente.

Assim como o Robertão, o Norte-Nordeste teve muita festa, carreata e carnaval aos campeões pelas ruas de Fortaleza e Recife e o orgulho paraense pelo Remo, fazendo o Pará ser duas vezes vice-campeão do Brasil do Norte. E um dos maiores fatores que indicam ainda mais o paralelismo do Robertão com o Norte-Nordeste, é que assim que a CBD criou o Campeonato Brasileiro em 1971, ambos torneios tiveram fim.
Recife parou com o título leonino
Reprodução/central3.com.br

Não podemos negar que o futebol brasileiro foi remando meio a erros e acertos até galgar para chegar a níveis bem mais claros, modernos, profissionais e justos, mas não podemos fingir que não existiu uma violenta e desgraçada onda xenófoba e traíra em rasgar os próprios processos que estavam dando certo. O Brasil teve um torneio verdadeiramente nacional, a Taça Brasil e depois houve dois inter-regionais, um via critério técnico, outro por panelinha, em que a CBF, hoje, poderia escolher entre dois fatores: ou faz que o Robertão deixe se ser o que ele foi tido em 2010, como campeonato brasileiro, pra virar o que ele é de fato, um inter-regional, ou a CBF simplesmente transforme o Torneio Norte-Nordeste em campeonatos brasileiros, pois de fato e de forma legítima foram duas coisas equivalentes, com a diferença que de um lado o que era resolvido na bola era respeitado, enquanto de outro, o dinheiro e o status ditavam e eram o que lhe guiava, mesmo com participantes pequenos e de grandes jejuns ganhando espaço pra campeões que por não ter força política, perdia o direito de disputar uma Libertadores, assim como todos do lado norte.

CBF, tenha vergonha! Reconheça os erros que a CBD cometeu no passado e os seus erros realizados em 2010. Parabéns, a Taça Brasil merece ser reconhecida como um verdadeiro e legítimo torneio nacional, pois era, foi dela que o Santos foi bicampeão do mundo sendo o representante do continente, que venceu no Brasil por uma competição onde todo o país era envolvido. Dê a Sport, Ceará e Fortaleza, campeões do Brasil do Norte em 1968, 1969 e 1970 as mesmas taças que você deu a Santos, Fluminense e duas vezes ao Palmeiras por serem campeões do Brasil do Sul em 1968, 1970 e 1967 e 1969. Errou, ok, volte atrás. Sejam dignos e mostrem que vocês podem realizar ações e reparações do tamanho, relevância e peso dessas 5 estrelas que moram em cima do teu escudo.
Essas são as faixas e taças conquistadas pela unificação, as quais Ceará, Fortaleza e Sport devem receber por direito. Foto: Reprodução/O Globo
Clubes e federações campeãs, vices e até mesmo participantes dos torneios, movam-se, lutem, busquem apoio de suas torcidas e de formações sobre o tema. É um caso de justiça de mais de 50 anos atrás que se tornou ainda mais absurdo há 12 anos. Criem um dossiê e tenham certeza que irão conseguir, pois fatos temos de sobra e confiar na justiça brasileira realizando ações corretas em pró do nordeste ainda é possível, até mesmo no futebol, assim como em 2001.


Títulos nacionais de elite do eixo Norte do Brasil:

Campeonato Brasileiro: Bahia (1959 e 1988) e Sport (1987)
Copa do Brasil: Sport (2008)
Copa dos Campeões: Paysandu (2002)
Troféu Roberto Gomes Pedrosa: 1 (1987)

Com seus status oficiais de época:

Campeonato Brasileiro: Bahia (1988) e Sport (1987)
Taça Brasil: Bahia (1959)
Copa do Brasil: Sport (2008)
Copa dos Campeões: Paysandu (2002)
Módulo Amarelo do Campeonato Brasileiro: Sport (1987)

Como ficariam os títulos nacionais de elite do eixo Norte do Brasil com o ato de justiça da CBF:

Campeonato Brasileiro: Bahia (1959 e 1988), Sport (1968 e 1987), Ceará (1969) e Fortaleza (1970)
Copa do Brasil: Sport (2008)
Copa dos Campeões: Paysandu (2002)
Troféu Roberto Gomes Pedrosa: 1 (1987)

Com seus status oficiais de época:

Campeonato Brasileiro: Bahia (1988) e Sport (1987)
Taça Brasil: Bahia (1959)
Robertão: Ceará (1969), Fortaleza (1970) e Sport (1968)
Copa do Brasil: Sport (2008)
Copa dos Campeões: Paysandu (2002)
Módulo Amarelo do Campeonato Brasileiro: Sport (1987)


Taça concedida pela CBD ao campeão do Torneio Norte-Nordeste, o Robertão do Norte
Imagem: Sport Club do Recife